Pax Intratibus

5.9.06

Milan Kundera e o Estado Português

Lembro-me da primeira vez que li "O Livro do Riso e do Esquecimento" de Milan Kundera. Considero-o a sua melhor obra, seguido de perto pela "A Arte do Romance" e "A Insustentável Leveza do Ser" (ou será a insustentável leveza dos ordenados mensais?). Três grandes obras de entre o acervo de um grande escritor. Mas curiosamente 3 obras que deveríamos condensar apenas numa, apadrinhar e aconselhar aos estrangeiros com o seguinte título: "Livro da Ensinança de Mal Governar a Toda a Prova" (D. Duarte não se importava) e como subtítulo: "Compreenda a República Portuguesa e os seus últimos 15 Governos em apenas algumas horas". Sim! E tudo graças a um escritor checoslovaco, que se viu obrigado a férias compulsivas e a naturalizar-se Francês porque o Stalinismo proporciona a um escritor toda a liberdade criativa que ele queira exercer com a única condição de nunca contrariar as "verdades" (leia-se Dogmas) do Zé Estaline.
Há uma parte do "Livro do Riso e do Esquecimento" em que Kundera discorre acerca das historietas que os homens contam sobre os seus episódios com as mulheres. Então Kundera separa estes contos em 3 tipos: As mulheres que um homem teve (quase sempre as mais desinteressantes, mas de forma nenhuma sempre), as mulheres que um homem quis ter mas nunca conseguiu e aqui os motivos podem ser milhentos (estas são sempre muito interessantes e descritas aos amigos carregadas de mentiras e desculpas) e um 3º tipo muito estranho a que nem o Kundera consegue dar bem a volta. Seriam aquelas mulheres que nós queríamos e podíamos ter tido, que nos queriam e nos podiam ter tido, mas que nunca pudemos ter porque passaríamos o muro para o outro lado. Ou seja, perderíamos nessas mulheres a nossa identidade, desfazendo-nos e espraiando-nos como um rio quando entra no oceano. Seria um sacrifício incomportável. Entraríamos na ausência do "quem sou"? E "quem é ela"? Que Eu? Que Ela? Já imaginam a barafunda! (tão do agrado do Budismo, risos).
Num paralelismo livre com o Estado Português diríamos que o 1º tipo são as distorções do que supostamente temos, mas que afinal nem temos (tem a Eurozinc e outras grandes empresas estrangeiras) tudo isto enfeitado como se de um bolo se tratasse; é a história dos 2 e 2. Se for para receber são 22, se for para pagar são apenas 4; o 2º tipo "damos-lhe de calcanhar", aquilo que sempre quisemos mas nunca conseguimos! O que é isso para os portugueses tão habituados a este estado de coisas desde D. Afonso Henriques? Diria que esta 2ª categoria não existe para Portugal. É denegada, negada, recalcada (não, não vou falar dos vinte e tal mecanismos de defesa do Ego (risos)). É só ouvir um 1º Ministro Português a abrir a cremalheira e concluir pelas suas palavras que nós temos tudo, nada nos faltou, falta ou faltará! Do 3º tipo também estamos safos! Integrarmo-nos nas boas economias? Espraiarmo-nos na evolução económica e sócio-cultural dos Países do Norte da Europa? Mas o que é isso!? Isso são golpes baixos de um escritorzeco checoslovaco adulterado por um Abade duma Ordem obscura! Esses países nem estão melhor que nós! – referiu Zézinho Sócrates ao jornal Gazeta do Sobreiro Perdido. Repare, enquanto eles têm um problema com o dinheiro, nós os Portugueses estamos livres disso! O nosso problema neste Portugal é o tempo! Sim! O tempo e não o dinheiro! Os Portugueses têm montes de tempo para gastar o muito pouco dinheiro que têm! Por isso como se depreende desta minha ilação – continuou Zé Sócrates - só temos de resolver o problema do tempo em excesso. E já começámos: aumentámos a idade da reforma e queremos e vamos aumentar o número de horas semanais de trabalho. Com muito menos tempo desocupado, os Portugueses não terão oportunidade para gastar os "chorudos" ordenados que o Estado e/ou as Empresas lhes pagam.

Nota do Autor: Contactado por mim, Milan Kundera referiu nunca ter desconfiado de que um livro seu pudesse ser tão esclarecedor acerca do funcionamento de um País (se os Geógrafos fazem o que fizeram os Astrónomos e redefinem os mínimos a cumprir para se ser um País, ficamos mesmo uma Província da União Europeia). Disse-me também em 1ª mão que fará sair uma edição especial para o Estado Português que até poderá vir a ser psicografada pelo célebre medium alentejano "O Dadinho do Outro Mundo". O Maquiavel é que se lixou de vez em Portugal. A malta quer lá saber do "Príncipe", queremos é rir e esquecer. É um título para Portugal e os Portugueses. Ou rimos e esquecemos ou choramos e deprimimos profundamente. Romanceamos a vida porque com esta realidade não vai dando para singrar sem romance, sem lirismo, e neste aspecto os Portugueses são mesmo artistas, por isso há obrigatoriamente em cada Luso um Romancista em potência. A insustentável leveza dos ordenados só é contrariada pelo insustentável peso dos impostos. Chamemos aqui o grande Oscar Wilde que nos dizia: "Só há duas tragédias na vida: uma é não ter o que se deseja; a outra é obtê-lo.".
Como nós não temos o que desejamos e obtemos o oposto do que queremos esta frase só se nos aplica na primeira tragédia "Wildeana". Pelo que se conclui que a vida dos Portugueses não tem duas tragédias, mas apenas uma. Ah! País de gente sortuda, de características únicas e pardacentas...

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