Pax Intratibus

6.10.06

Noites Anacrónicas

Beja, deserta de gentes em Julho. Como aldeia exposta ao sol fundente de Agosto.
Beja que desperta num Setembro amuado, de saber-se Verão acabado.

Beja dos tantos abandonos, políticos e de outros contornos,
Beja deserta, de Saara disfarçada, da falta de pessoas amortalhada.

Mas ao olhar o castelo ou uma qualquer rua, sob a chuva miúda e nocturna,
Ah! Beja, que aromas se desprendem do teu ventre,
que sentimentos acordam num repente, de gente abalada, viva, morta, enterrada.

E quando finalmente me sorris à distância do olhar, aperta-me o coração,
De te saber tão cândida e sofrida, do teu desalento, desespero, ferida.
Ah! Beja, mãe pobre de tantos filhos, amamentados a esperança e nostalgia,
Dum tempo tão belo e arruinado, que sonhei que ele da planície renascia.

Escuto no silêncio da noite o chamamento de séculos para a oração virada para Meca,
Ouço os barulhos dos gárrulos vendedores no mercado, o artigo anunciado.
Atento naquela linguagem que estranha me é, que percebo porque a noite o permite,
Permissões e deslizes da lua em crescente na planície amada pelo crente.

Sentado numa almofada do círculo de Al-Mu'tamid, debico com prazer os seus versos,
Versos que embalam numa Beja feliz, longínqua da Sevilha meretriz.
Sinto-me bem neste povo de chá de menta e tamareiras, de tabaco e boas-maneiras,
Al-Mu'tamid continua cavalgando a sua inspiração, a brisa percorre-nos amena.

Viver para quê, se já fenecemos? Morremos na sede dum passado que acalenta e aninha.
De repente, como num acordar doloroso, a chuva pára, o silêncio preenche-se.
O passado escorre como mel pelos meus lábios gretados da falta de beleza e harmonia.
Sabe a pouco acordar nestes tempos de ninguém saber quem és, mas apenas o que tens.

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